ATUALIDADES

 

Mês vocacional: escuta do chamado,
tempo de resposta e meditação

Deus nos chama, capacita-nos e nos envia em missão. A iniciativa do chamado é divina, mas a busca por ouvir a "voz que chama" é humana

O processo vocacional acontece na dinâmica do encontro entre Deus e o ser humano. A vocação pressupõe o encontro dialogal. "Ela é uma relação, um diálogo que se desenvolve entre duas pessoas livres" (G. Bruno. Resposta do Homem ao Chamado de Deus; estudo psicológico sobre a vocação. São Paulo, Loyola, 1990, p. 33). É claro que todo processo de diálogo e amizade demanda tempo, aperfeiçoamento, discernimento. Daí a necessidade de avançar, passo a passo, na direção de um discernimento vocacional. O cultivo da vocação, a escuta do chamado, o discernimento e a resposta devem ser considerados muito importantes na caminhada vocacional dos cristãos.

Em agosto celebramos o mês vocacional. É tempo de (re)pensarmos a importância das vocações específicas - cristãos leigos e leigas, vida consagrada e ministérios ordenados. O nosso primeiro chamado é à vida. Despertamos para a existência por um ato divino. Deus, que tudo criou, chama-nos à vida e à felicidade.

Os ministros ordenados

No primeiro domingo do mês de agosto, e durante toda a primeira semana, celebramos o sentido e a importância do ministro ordenado. Padre, diácono e bispo são, em princípio, aqueles que animam a comunidade, seja por meio de suas atividades específicas, seja pela oração. O padre preside a Eucaristia, anuncia a Palavra e dá testemunho de caridade. O diácono, homem consagrado a Deus para assistir os pobres na caridade e servir à Liturgia, participa da vida da Igreja como ministro ordenado. O bispo, que também é presbítero, diferencia-se por sua responsabilidade. Ele é um homem de fé, que administrando a diocese - pastoral e estruturalmente - procura ser elo, ponte de comunhão entre os ministros ordenados e os fiéis. Os ministros ordenados procuram dar testemunho do amor a Jesus, na fidelidade à Igreja e no exercício do ministério. Como aqueles que se fazem pai espiritual dos membros de sua comunidade, eles se apresentam e vivem como homens de oração, de amizade com Cristo, de comunhão e de acolhida dos necessitados. Nossa oração, na primeira semana do mês de agosto, volta-se ao Senhor da messe, para que conceda ânimo e ardor missionário a todos os ministros ordenados.

A família

A vocação matrimonial é, talvez, a mais desafiadora em nossos tempos. Testemunhar o amor entre duas pessoas, por esse amor gerar filhos, constituir família e pautar a vida nos valores de Jesus é um desafio atual e urgente para as famílias. Originalmente, o matrimônio é vocação, antes de ser sacramento (sinal de Deus). Homem e mulher sentem-se impelidos ao amor. Esse sentimento, que não se reduz a paixões ou sentimentalismos vãos, nasce em Deus e se estende ao homem e à mulher. O sacramento, como sinal do amor entre eles, é expressão do compromisso de fidelidade, da bênção de Deus na vida dos que desejam conviver juntos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza, até o fim de suas vidas. O segundo domingo do mês vocacional, quando se celebra o Dia dos Pais, e toda a segunda semana de agosto (Semana Nacional da Família), é dedicado a essa vocação. Trata-se do domingo da família, da vocação ao amor. A oração da Igreja e o ensinamento da Palavra de Deus voltam-se para esse momento especial, o de rezar e meditar sobre a vocação da família.

Vida consagrada

O terceiro domingo de agosto, Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, sugere-nos uma atenção especial aos consagrados e consagradas. Homens e mulheres, que normalmente chamamos de irmãos, irmãs, frades, freis, freiras, "escolheram o caminho do seguimento de Cristo para se dedicarem a ele de coração indiviso" (Vita Consecrata, 1). Os consagrados dão testemunho radical de seguimento a Cristo através dos Conselhos Evangélicos, os votos de pobreza, castidade e obediência. Para os consagrados, eles são expressão de uma vida igual a de Jesus, meios para alcançar a plenitude em Deus. Por isso, os consagrados vivem, em sua maioria, em fraternidade, numa vida simples, casta e dialogal com Deus e com seus coirmãos. A pobreza é expressa pelo estilo de vida simples, pela oblação da vida, pelos esforços espirituais para assemelharem-se ao Cristo pobre, que não tinha onde reclinar a cabeça (cf. Lc 9,58). Obedientes a Deus, os religiosos - em seus mais diversos estilos de vida - procuram configurar sua vida à de Cristo, que é arquétipo da obediência perfeita ao Pai. Por tudo isso, disse João Paulo II que "a vida consagrada, especialmente em tempos difíceis, é uma bênção para a vida humana e para a própria vida eclesial" (Vita Consecrata, 87). Não obstante os desafios e desencantos do nosso tempo, a multiplicidade de estilos de vida consagrada faz com que a consagração a Deus tome vários rostos. Isso enriquece a Igreja e a faz sinal de unidade na diversidade. Rezemos, na segunda semana, pelos consagrados e consagradas, para que Deus os fortaleça em seu seguimento radical a Jesus, pobre, casto e obediente, tendo sempre Maria como modelo.

Cristãos leigos e leigas

A vocação laical ocupa grande importância no quarto domingo do mês vocacional. Entre muitos motivos, queremos pontuar três: a) os leigos e leigas dão vida à ação pastoral da Igreja no mundo; b) é a vocação pela qual todos passamos, inclusive Jesus, antes de discernirmos uma ou outra vocação específica; c) os leigos são chamados a ser "sal da terra e luz do mundo" (cf. Mt 5,13-14) nos setores sociais - na relação com outras pessoas, no trabalho, na educação, na economia, na política. Nesses setores, fazem resplandecer, por gestos e palavras, a força do evangelho encarnado. Os leigos, de modo especial, são a ponte entre a fé em Jesus e a encarnação dessa fé, aonde atuam. Em virtude de seu batismo, o trabalho dos leigos representa "a participação na própria missão salvífica da Igreja" (Lumen Gentium, 33). Os leigos trabalham "para que o plano divino da salvação atinja cada vez mais todos os homens, em quaisquer tempos e lugares" (Ibidem). Não valeria nada nossa fé se não pudesse ser transmitida, ensinada e vivida para além das paredes do templo. Uma vez entendido e assumindo o mandamento de Jesus - "Ide e evangelizai, batizando todos em nome do Pai..." (cf. Mt 28,19-20) -, os leigos e leigas, nas pastorais e no trabalho, fazem com que a face da terra se renove pela força de sua fé, de seu testemunho. Daí a suma importância dos leigos no seio da Igreja. Rezemos por esses protagonistas da fé em nossa vida.

Ministérios não-ordenados

O último domingo de agosto, Dia do Catequista, é dedicado a todas as vocações que exercem algum serviço na Igreja, aqueles que exercem ministérios não-ordenados. E o catequista é modelo deste ministério. Um herói, pedagogo da fé, testemunha de esperança. O catequista é aquele que, tendo se encantado com Jesus, com seu projeto e suas atitudes, não se contenta em guardar sua experiência de Cristo só para si. Partilha e amplia com o outro. Esforça-se para adquirir profundo conhecimento e experiência de Deus, de Jesus e do Espírito, além dos ensinamentos da Igreja, para transmiti-los amorosamente às crianças, aos adolescentes, jovens e adultos. O catequista é um dos primeiros responsáveis pela fé da comunidade, um motivador das famílias, para que vivam a fé, ensinem e transmitam aos filhos o projeto de Deus. Daí a importância de rezarmos e rendermos graças a Deus por estes jovens, homens e mulheres, adultos e idosos que testemunham o amor a Deus através da catequese.

Quando não há cinco domingos em agosto, celebra-se no quarto domingo as vocações do catequista e dos ministérios não-ordenados, e a vocação dos cristãos leigos e leigas.

José Sival Soares
Religioso Rogacionista, graduado em Filosofia