ENTREVISTA

 

Na palma da mão de Deus

Arcebispo emérito de Belo Horizonte, o cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo, aos 85 anos, demonstra vitalidade de menino, e nos apresenta um testemunho vocacional contagiante

   

Eleito bispo aos 34 anos, o mais jovem do Brasil, o cardeal emérito de Belo Horizonte (MG), Dom Serafim Fernandes de Araújo, hoje com 85 anos, é um exemplo de vocacionado. Incansável, em 2009 ele completou 60 anos de vida sacerdotal e 50 anos de episcopado, mas garante que não há aposentadoria para um operário da messe. Além de sua intensa atividade na Igreja, que inclui a pregação de retiros Brasil afora, ele também dirige a fundação José Fernandes de Araújo (FJFA), que concede bolsas de estudos a universitários de baixa renda.

Para contar um pouco de sua história, Dom Serafim lançou no segundo semestre de 2009 a biografia “Na palma da mão de Deus; de menino do Vale do Jequitinhonha a cardeal de Belo Horizonte”. Organizado pelos jornalistas Eduardo Franco, Graziela Cruz e Vânia Queiroz, o livro apresenta a trajetória de Dom Serafim desde seu nascimento, em 13 de agosto de 1924, na pequena cidade de Minas Novas (MG), passando pelo seu despertar vocacional, pelos diversos cargos que exerceu, casos da vice-presidência da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da co-presidência da Conferência de Santo Domingo, além da participação no Concílio Vaticano II, em sínodos e conferências. No clima do Ano Sacerdotal, a Rogate apresenta este testemunho que suscita vocações.

           

Rogate: O chamado para a missão acontece das mais diferentes formas. E para o senhor, como foi este chamado?

Dom Serafim: Deus começou a tomar conta de minha vocação no momento em que, por caminhos que só ele conhece, encontraram-se pela primeira vez meu pai, José Fernandes de Araújo, com 19 anos incompletos, e minha mãe, Gabriela Leite Araújo, com 17 anos, também incompletos. Primogênito entre 16 filhos, eu e minha família pudemos sentir os desígnios amorosos da Providência em cada passo que demos, desde quando, menino de apenas dois meses de idade, fui de Minas Novas para Itamarandiba (MG), pequena cidade do Vale do Jequitinhonha, piedosa e cheia de Deus. Minha vocação começou a sedimentar-se pela bondade de Dom Serafim Gomes Jardim, então arcebispo de Diamantina (MG), e pela clarividente ação pastoral do Pe. José André Coimbra, que depois se tornaria bispo de Patos de Minas (MG). Foi ele que, ao me ver rezando na Igreja, perguntou: “Menino, você não quer ser padre?” E eu: “Quero, mas meu pai não dá conta de pagar meus estudos”. A partir daí, Deus encaminhou tudo. Cursei o seminário de Diamantina, de onde, aos 21 anos, logo após o fim da 2ª Guerra Mundial, fui à Itália, para completar os estudos teológicos na Pontifícia Universidade Gregoriana, de Roma. Ordenado sacerdote em 12 de março de 1949, na catedral de São João de Latrão, retornei à minha arquidiocese de Diamantina, onde lecionei Direito Canônico no seminário, e Cultura Religiosa nos colégios locais. Fui diretor arquidiocesano de catequese, capelão do batalhão da Polícia Militar e, sucessivamente, pároco por seis anos de Gouveia (MG) e por dois anos de Curvelo (MG), de onde a Santa Sé, em 19 de janeiro de 1959, convocou-me para ser bispo auxiliar de Belo Horizonte. Fui sagrado bispo em 07 de maio de 1959, em Diamantina.

Rogate: Como bispo emérito, o senhor tem uma intensa atividade na Igreja, bem como na área social, junto à juventude universitária, por meio da FJFA. O que motiva esta sua missão?

Dom Serafim: A Fundação José Fernandes de Araújo foi concebida quando eu ainda era bispo auxiliar de Belo Horizonte e reitor da Universidade Católica de Minas Gerais (depois Pontifícia), cargo que exerci por 21 anos. Nesse tempo, perdi meu pai que, com o trabalho honesto em sua cadeira de dentista itinerante, pôde criar e educar, com enormes sacrifícios, a todos nós. Quando morreu em Belo Horizonte, nem talão de cheques possuía. Mas tinha uma família criada e encaminhada. Com meus proventos de reitor, eu havia conseguido fazer uma casa para meus pais e adquirido alguns lotes. Ao encomendar o corpo de meu pai, pensei: “ele nasceu pobre e morreu pobre. Eu também quero viver e morrer pobre como ele”. Vendi tudo o que tinha e criei a fundação que leva o nome dele, e que se destina a conceder bolsas de estudos a alunos carentes da PUC Minas. A FJFA já possibilitou a formação de 1.638 alunos, verdadeiros tesouros de inteligência e de qualidade humana que, de outra forma, talvez não pudessem ter concluído seus estudos. Eles são o patrimônio mais valioso da fundação.

Rogate: Os bispos eméritos realizaram no mês de setembro de 2009, em Aparecida (SP), o seu primeiro encontro. É mais um sinal de que o testemunho dos “discípulos missionários” deve ser permanente?

Dom Serafim: O padre e o bispo foram consagrados para o serviço do Povo de Deus, à imagem de Jesus, Bom Pastor, que veio “não para ser servido, mas para servir” (Lc 24,26-27). O serviço, a missão de fazer discípulos de Jesus (Mt 28,19-20), não pode conhecer pausa. É inerente ao chamado. Por isto, a aposentadoria do padre e do bispo difere substancialmente da do funcionário público ou privado. Seria trair e matar a vocação sacerdotal e a episcopal acomodar-se, aposentar-se da missão evangelizadora. Como emérito, continuo a celebrar missas, administrar os sacramentos, pregar retiros, fazer atendimento pessoal, ouvir quem precisa de mim. Sem dúvida, o testemunho de zelo dos eméritos, apesar do ônus da idade e, muitas vezes, das enfermidades, é poderoso fator de motivação na pastoral vocacional. Quanto à oportunidade e acerto da iniciativa da CNBB em promover o encontro, falam eloquentemente o bom número de eméritos que compareceu, a beleza de seus testemunhos, o fortalecimento da fraternidade colegial entre eles e com os irmãos em atividade pastoral. Todos deram o que puderam de si em favor de suas Igrejas. São e estão felizes por se sentirem não inúteis e “encostados”, mas trabalhando muito e sustentando a beleza do Reino nas pessoas. Com toda modéstia, o grupo dos eméritos dá sustentação pastoral e afetiva às Igrejas que administraram, pela oração e de muitos outros modos. O testemunho deles poderia chegar a muita gente, mas, em geral, fica circunscrito ao âmbito das dioceses nas quais foram pastores.

Rogate: O senhor foi vice-presidente da CNBB e um dos co-presidentes da Conferência de Santo Domingo, além de participar do Concílio Vaticano II, de sínodos, de conferências... Por tudo o que viu e ouviu, acredita que o conceito de vocação é muito diferente hoje do que foi em outras épocas?

Dom Serafim: Essencialmente, não. A iniciativa do chamado é sempre de Deus. A intensidade com que o chamado é ouvido ou acolhido é que pode ser perturbada pelos ruídos e apelos do mundo. Os caminhos aos quais Deus se serve podem ser os mesmos da tradição. Mas ao mesmo tempo podem ser afetados - na eficácia da resposta - por novos conceitos de comunicação, pela influência secularizante da mídia e de uma educação egocêntrica e hedonística, que erige o indivíduo em centro do universo. Nossas escolhas talvez sejam mais condicionadas, atualmente, por uma sociedade secularizante, do que o foram no passado por uma sociedade mais impregnada de Deus. Nesse contexto, volto ao exemplo dos eméritos. O testemunho que dão de oferta total de si a Deus e ao próximo chega forte ao coração dos jovens em geral e de suas famílias. O carinho que tenho recebido, como emérito, da parte de padres, bispos, seminaristas e famílias do Povo de Deus, confirma que o apelo vocacional mais poderoso, hoje, ainda é o exemplo daqueles que se doam totalmente ao serviço dos irmãos como uma vela que se extingue para iluminar. Como o Santo Cura d’Ars.

Rogate: A Conferência de Aparecida parece ter agradado a todos os segmentos da Igreja Católica...

Dom Serafim: Analiso “Aparecida” como um conjunto de raízes vigorosas que estão se aprofundando na consciência da Igreja da América Latina e do Caribe, nomeadamente na do Brasil, e que despontam com viço para fora da terra. Queira Deus que não se enfraqueçam e se tornem galhos secos por nossa omissão em regá-las, adubá-las e torná-las fecundas com a nossa plena adesão! Em si, o Documento de Aparecida é ótimo, parece ter caído no agrado geral. Representa a resposta que chega de uma caminhada, já longa, de toda a Igreja da América Latina e do Caribe, mas de uma caminhada que deve continuar. A resposta tem conexão com as situações locais e continentais, é fruto de experiências pastorais e evangelizadoras, vivenciadas e compartilhadas, atestando que somos unidos, que somos Igreja. Mas faço uma advertência: a Conferência de Aparecida dá respostas a quase tudo, mas não tem sido absorvida na medida plena, esperada por todos, bispos, padres, leigos, religiosos etc.

Rogate: Experiente em matéria de Conferências Latino-americanas, o senhor acredita que as indicações de Medellín, Puebla e Santo Domingo foram colocadas em prática?

Dom Serafim: Respondo, sem ambiguidade, com um “sim” e um “não”. “Sim”, pelo resultado positivo que certamente adveio de cada uma para o conjunto de nossas Igrejas, despertando a consciência missionária e evangelizadora de ministros ordenados e de leigos. Mas este “sim” vai misturado a um “não”, motivado pelo fato de que nenhuma daquelas indicações chegou com a devida intensidade ao coração da Igreja do Brasil e da América Latina e Caribe. Seria triste que o mesmo ocorresse com a Conferência de Aparecida.

Rogate: E em relação ao Concílio Vaticano II, passados quase 50 anos de seu início, quais as grandes lições do concílio que ainda precisam se tornar realidades?

Dom Serafim: Ao convocá-lo, o Beato João XXIII não apenas quis “aggiornare” a Igreja, isto é, colocar a Igreja numa sintonia mais fina com as expectativas do mundo contemporâneo, em contínua mutação, e carente de rumo, de valores éticos e de esperanças. Quis também antecipar realidades e soluções a problemas do mundo atual, ou seja, projetar-se no futuro. As respostas que propôs nesse sentido foram preciosas. Mas o mundo de hoje já não é mais o de meados do século XX. A dinâmica das transformações atropela continuamente previsões e proposições. O certo é que os tempos mudaram também para a Igreja. Em algumas coisas, para melhor; em outras, para pior. Assim, a vivência de valores humanos e cristãos se deteriora a cada dia. Esses valores são substituídos por sucedâneos que o mundo chama de valores, mas que, na verdade, são contra-valores: o egocentrismo, o hedonismo, o materialismo crasso, o relativismo religioso e ético etc. Muitos cristãos absorvem esses contra-valores. Daí a beleza da encíclica “Caritas in Veritate”, do Santo Padre Bento XVI. Ela é como um clarão nas trevas do mundo atual, a iluminar tanto países pobres como países ricos, que brincam de usar o dinheiro de que os pobres precisam e a que têm direito.

Rogate: Em 2010 teremos a realização do 16º Congresso Eucarístico Nacional, em Brasília (DF), no mês de maio. A que nos remete o tema, “Eucaristia, pão da unidade dos discípulos missionários”, e o lema, “Fica conosco, Senhor” (cf. Lc 24,29)?

Dom Serafim: A pergunta me leva a enfatizar a importância do evento, que não deve ser apenas uma explosão de alegria e de festa, mas, antes, haverá de ser a ocasião para o acolhimento da boa semente, que resulte em frutos fecundos de engajamento missionário e de compromisso com a transformação do mundo. O mesmo vale para o evento vocacional de setembro, quando a Igreja realiza o 3º Congresso Vocacional do Brasil. No caso do Congresso Eucarístico, o próprio lema: “Fica conosco, Senhor”, precisa ser muito aprofundado. De fato, a presença eucarística do Cristo entre nós não deve se limitar apenas à euforia, ao louvor, mas deve produzir uma transformação interior que leve à reconstrução do mundo, a sermos sal da terra e luz do mundo (Mt 5,13.14). Congressos que se repetem, por muitos frutos que possam gerar, podem também nos jogar na facilidade ingênua de achar que, feito o congresso, tudo está resolvido.

Rogate: A questão do discipulado missionário também está presente no tema do 3º Congresso Vocacional: “Discípulos missionários a serviço das vocações”. É um sinal de que as luzes da Conferência de Aparecida estão guiando a Igreja do Brasil?

Dom Serafim: Deveria sim, ser sinal disto. Mas, nem sempre títulos, lemas e chavões têm o poder de alimentar a profundidade da compreensão da Santíssima Eucaristia e, menos ainda, de impulsionar o vigor missionário da Igreja. Enquanto tema e lema não penetrarem fundo na vida e no agir do discípulo missionário, serão apenas bandeiras, estandartes, e não raízes que produzam frutos fecundos.

Rogate: O senhor acredita que os cristãos leigos e leigas têm consciência de sua vocação enquanto batizados? E a Igreja tem trabalhado esta questão?

Dom Serafim: Infelizmente a resposta é negativa, na minha concepção. Falta muito para que a consciência dessa vocação contamine santamente a massa de leigos e leigas. Talvez seja por isso que o papa tem sido tão explícito nas mensagens que vem dirigindo aos bispos brasileiros em suas visitas “ad limina apostolorum”, a respeito da identidade específica de fiéis ordenados e de fiéis leigos.  Creio, sim, que a Igreja tem trabalhado essa questão, mas ainda não de modo eficaz, que produza os resultados almejados.

Rogate: Em recentes visitas “ad limina” de bispos dos Regionais Nordeste 2 e Oeste 1 e 2 ao papa Bento XVI, acentuou-se a importância de que a Igreja do Brasil empenhe-se na busca de vocacionados ao sacerdócio. Mesmo que esta seja uma necessidade concreta, não há o risco de se privilegiar uma vocação em relação às demais?

Dom Serafim: O risco não deve existir. “Opportet unum facere et aliud non omittere”: é preciso fazer uma coisa sem omitir a outra. É Jesus quem nos ensina: “Na casa de meu Pai há muitas moradas” (Jo 14,2). O campo de ação é imenso e supera de muito a disponibilidade de trabalhadores: “A messe é grande e poucos os operários” (Mt 9,37). Tanto o sacerdócio ministerial quanto a vida consagrada são dons imensos e valiosos do Espírito à Igreja de Deus. Quem dera que os chamados para uma e outra vocação se multiplicassem “ad infinitum”! E quem dera que o influxo transformador da mulher religiosa consagrada viesse a permear com intensidade muito maior a vida das famílias, o magistério, a escola, o cuidado com os pobres, a atividade política, ali onde muitas vezes não chega a ação do sacerdócio ministerial! Continuemos, pois, a pedir ao Senhor da messe que mande muitos e santos operários para a sua seara, seja no serviço do ministério ordenado, seja no da vida consagrada.

Rogate: Nestes encontros com bispos brasileiros, Bento XVI também insistiu na necessidade de se evitar a secularização dos sacerdotes e a clericalização dos leigos...

Dom Serafim: O papa fala não porque esteja sobrando consciência vocacional e conceitual em cada uma dessas categorias de batizados, mas porque está faltando consciência na medida certa e teológica, em relação ao campo de atuação de uma e outra na obra da evangelização e da construção do Reino.

Rogate: O senhor tem orientado muitos retiros espirituais e refletido sobre o tema da ternura como “sacramento”. Uma Igreja sem ternura seria uma Igreja sem coração?

Dom Serafim: O tema da “ternura” tem chegado forte e transbordante no coração de religiosas, religiosos, padres e outras pessoas a quem tenho pregado. Torna-se, com frequência, resposta a inquietações e sinal de abertura de caminhos novos para todos. Posso dizer mais: as pessoas descobrem que o tema “ternura” está dentro de cada um e ainda não tem sido usado com todo o potencial como instrumento de fraternidade e de paz. Para mim, tem sido a surpreendente descoberta de um dom que Deus dá a todos, mas que às vezes jaz adormecido, à espera do estímulo da generosidade. Se a Igreja é Mãe e Mestra, não lhe pode faltar o carisma materno por excelência, que é a ternura.

Rogate: Em seu trabalho à frente da arquidiocese de Belo Horizonte, como o senhor avalia a presença e ação profética dos religiosos e religiosas?

Dom Serafim: Religiosos e religiosas são presença e ação benéfica sob todos os aspectos na Igreja de Deus. Conciliando oração e trabalho, vida contemplativa e ação, que São Bento sintetizou tão bem no “Ora et labora” do monaquismo ocidental, religiosos e religiosas são um dom inestimável do Espírito à Igreja. Atuam nas mais diversas frentes, como sacramentos vivos da bondade e ternura de Deus para com seus filhos e filhas, abrindo caminho mais fácil para ajudar a todos a serem felizes. Sou imensamente grato a Deus pelo apoio incondicional que sempre emprestaram ao meu ministério de Pastor. Que mensagem lhes poderia dirigir? Apenas esta: que, segundo o carisma de sua instituição, continuem a se santificar, para “cristificarem” o mundo; e que, na oração ou na ação, continuem a ser “sacramentos vivos” da ternura de Deus. Lembro do exemplo de Moisés que, questionado porque dois anciãos estariam profetizando com aparente independência, respondeu: “Quem dera que todo o Povo de Deus profetizasse!”. Dom do Espírito à Igreja - Espírito que “sopra onde quer” -, o profetismo há de ser sempre estimulado a se manifestar sob a orientação carismática da Igreja hierárquica.

Rogate: Entre os anos de 1990 e 1995, o senhor foi membro do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais. Como foi esta sua experiência?

Dom Serafim: Posso dizer, com algum humor, que “converti” muitos colegas bispos para essa área tão sensível para a evangelização, convencendo-os a se desfazerem de algum bem material do patrimônio de suas dioceses, em favor da aquisição de uma transmissora de rádio. Por seu extraordinário alcance e efeito multiplicador da Palavra, às vezes uma rádio, numa diocese, pode fazer mais pela causa da evangelização do que um prédio, uma fazenda, ou mesmo o espaço físico de uma Igreja. Ter sido membro do Pontifício Conselho das Comunicações Sociais me proporcionou conhecer os problemas de comunicação da Igreja em outros países, e me tornou mais consciente do esforço imenso da Santa Sé para levar o evangelho e o pensamento da Igreja ao mundo todo, através dos meios de comunicação social, valendo-se desse instrumento precioso que Deus pôs em suas mãos.

Rogate: A revista Rogate presta um serviço vocacional para a Igreja. O que o senhor aconselharia para que a Igreja de fato seja uma animadora de todas as vocações?

Dom Serafim: Penso que a Igreja ganharia muito se fizesse uso mais intenso de todos os instrumentos de graça, perdão e misericórdia de que dispõe, pondo-os concretamente a serviço do coração de Mãe que ela tem. Numa palavra: choramos por soluções, tendo a chave delas dentro de nós. Fazemos como crianças, que às vezes choram por guloseimas, tendo o doce na mão. Para ser animadora de todas as vocações, a Igreja deve ser a manifestação palpável da ternura de Deus, manifestada em Jesus Cristo. Pelo menos deveria ser assim.

Rogate: Em seu livro biográfico, à página 120, o senhor afirma que o Concílio Vaticano II “foi o meu doutorado pastoral”. Poderia nos explicar o porquê?

Dom Serafim: Minha nomeação episcopal ocorreu em 19 de janeiro de 1959, tendo sido eu o primeiro bispo brasileiro nomeado pelo Beato João XXIII. Coincidentemente, ou por uma daquelas “delicadezas” de Deus para comigo, no mesmo mês (25 de janeiro de 1959), o saudoso Pontífice convocava o Concílio Vaticano II. E tudo o que aprendi no Concílio – posso dizê-lo com propriedade –, se assemelhou, para mim, a um grande Curso de Pastoral, a um Doutorado e a uma escola exigente, em que falei muito pouco e aprendi demais.

Rogate: No livro o senhor relata a ameaça de atentado ao papa João Paulo II durante a visita do Sumo Pontífice ao Brasil, na passagem por Minas Gerais. Como foi lidar com um caso tão grave?

Dom Serafim: O papa não ficou sabendo da ameaça. Somente duas pessoas tomaram conhecimento disto: D. João Resende Costa, arcebispo metropolitano, e eu, seu bispo auxiliar. Como foi lidar com esse caso tão grave? Acabar com a festa? Subtrair o papa da vista e do coração do povo que se comprimia para vê-lo passar? D. João e eu agimos dentro da espiritualidade que compartilhávamos: colocar tudo “na palma da Mão de Deus”. Reunimo-nos os dois na capela do Palácio Cristo Rei, rezamos muito e encontramos a resposta: não teria sido oportuno divulgar a ameaça de um alienado. Ficamos com a convicção de termos feito a coisa certa. A beleza da visita do grande papa a Belo Horizonte não foi empanada por nenhum incidente e ficou gravada indelevelmente na memória do Pontífice e da imensa multidão que o aclamou. Ele ficou apenas 5 horas em Belo Horizonte, mas teve motivos de sobra para afirmar aos jovens e a todo o povo: “O papa não os esquecerá nunca mais!”. De fato, foi-nos revelado por fonte bem chegada a João Paulo II que, dos 111 lugares que ele visitou, o que mais ficou gravado em sua memória e em seu coração foi Belo Horizonte. Outra prova disto: desde então, o papa não me chamava mais pelo nome, mas me chamava, simplesmente, de “Belo Horizonte”.

Rogate: Na página 162 do livro, o senhor recorda a visita a uma humilde senhora, para quem faltavam os bens materiais, mas não a fé. Movido de compaixão, o senhor reza com ela o Salmo 23 (22): “O Senhor é meu Pastor...” Também movido de compaixão, ao visitar as aldeias e constatar a carência do povo, Jesus afirma que a “messe é grande e os operários são poucos. Pedi, pois, ao Dono da messe que envie operários à sua messe” (cf. Mt 9,35-38). Qual a importância desta compaixão no surgimento de novas vocações e na caminhada da Igreja?

Dom Serafim: Acho-a indispensável. Nosso pastoreio não pode ser autoritário. Ou se chega ao coração das pessoas com a compaixão de Jesus, ou não se chega à alma de ninguém. Jesus Cristo, no evangelho, chegou ao coração de todos, até mesmo ao do Bom Ladrão, pela via do fruto mais belo da ternura de Deus, que é o perdão.

Rogate: Em 1995 o senhor acolheu o COMLA 5 (Congresso Missionário Latino-americano) na arquidiocese de Belo Horizonte. Quais os principais frutos ou indicações do COMLA 5 que estão presentes ainda hoje na Igreja e na sociedade, passados 15 anos deste belo evento missionário?

Dom Serafim: Sem falsa modéstia, talvez tenha sido o acontecimento missionário de maior repercussão, na época, no âmbito de toda a Igreja Católica e, sem dúvida, o maior evento eclesial já promovido pela arquidiocese de Belo Horizonte. Em Roma, o papa João Paulo II sempre se informava sobre os preparativos, a realização e os resultados do COMLA 5, e dava seu aval entusiástico a tudo. Sobre os frutos do COMLA 5: estabeleceram-se preciosas amizades nacionais e internacionais, que perduram (e como o povo mineiro sabe receber bem!); difundiu-se, além-fronteiras do Brasil, uma assumida consciência missionária, como imperativo do discípulo de Jesus; frutos da ação missionária entram na espiritualidade cristã como seiva que circula e revigora a vida da Igreja. Resumindo: o que ficou do COMLA 5 é mais do que um monumento; ficou a consciência de que lá fora se acha um mundo a ser conquistado e permeado pela ternura de Deus.

Rogate: Uma mensagem final...

Dom Serafim: O caminho do “discípulo missionário” é o mesmo que Jesus trilhou. Ele “começou a percorrer todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino e curando todo tipo de enfermidade” (Mt 9,35). Este é o começo da missão: pôr-se a caminho, “ir a todas as cidades e povoados”. O âmbito é o mundo todo (“ide por todo o mundo” – Mc 16,15). O objetivo da missão também deve ser o mesmo do Mestre: “ensinar nas sinagogas, proclamar a Boa Nova do Reino e curar todo tipo de enfermidade” que aflige o ser humano. A alma da missão é a compaixão do Mestre. Por três vezes Mateus sublinha o estado de alma de Jesus diante das multidões carentes de pastores: “Ao ver as multidões, Jesus encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor” (Mt 9,36). “Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles e curou os que estavam doentes” (Mt 14,14). “Jesus chamou seus discípulos e disse: ‘Sinto compaixão dessa multidão (...). Não quero mandá-los embora sem comer, para que não desfaleçam pelo caminho’” (Mt 15,32). Sem a ternura de Jesus, não se pode chegar ao âmago do coração das pessoas. Mas o orvalho que fecunda a missão é a oração. A iniciativa é sempre de Deus: “Pedi, pois, ao Senhor da colheita que envie trabalhadores para sua colheita” (Mt 9,38). O salmista já proclamava: “Se o Senhor não construir a casa, é inútil o cansaço dos pedreiros” [Sl 127 (126), 1]. Que cada ministro consagrado, cada batizado, pessoa de vida consagrada, cristão leigo ou leiga, homem ou mulher, seminarista, tenha diante dos olhos e do coração a imagem compassiva de Jesus e atenda ao chamado com a generosidade dele. E, sobretudo, reze muito, e sempre, para que ele mande trabalhadores para a sua colheita.