3º Congresso Vocacional do Brasil

 

04 de setembro - sábado:
Marco situacional - Vocações no atual contexto sociocultural e eclesial

síntese feita por Juarez Albino Destro

 

Após a abertura do congresso, na noite de ontem, a primeira assessoria - do teólogo e sacerdote Agenor Brighenti - apresenta um retrato de nossa situação, local onde estão as vocações e os ministérios. Pe. Agenor é professor em Curitiba (PR) e assessor da CNBB, autor de vários livros e artigos sobre teologia e pastoral

UMA REALIDADE COMPLEXA E AMBÍGUA


Pe. Agenor Brighenti iniciou sua apresentação afirmando que nossa realidade é muito complexa e com ambiguidades. “Vivemos num contexto de crise. Nosso tempo é marcado por profundas transformações”, afirmou. E a consequência é o sentimento de orfandade, de abandono. Por outro lado, o assessor disse ser um privilégio passar por crises: “Pode gerar um novo nascimento, possibilitar uma nova oportunidade”.
Diante da crise devemos evitar uma postura catastrófica, numa mentalidade apocalíptica, como se já tivéssemos que esperar pelo fim. Devemos evitar, também, fazer meramente retrospectiva histórica, apegando-nos a fatos passados. Precisamos ser serenos, discernindo os sinais dos tempos, sem fugir do presente, confiando na experiência do passado, olhando para o futuro, esforçando-se para construir algo melhor do que se vive na atualidade.

A REALIDADE EM DEZ AMBIGUIDADES

1. Individualismo X Novas formas de sociabilidade
Diante de pessoas extremamente individualistas e consumistas, onde proliferam projetos pessoais, onde se prefere a repreensão do que a responsabilidade, as novas formas de sociabilidade surgem como estratégia de defesa. Neste contexto é muito difícil, por exemplo, a pastoral de conjunto.

2. Economia de rapinagem X Consciência ecológica
A economia de rapinagem depreda a natureza e fere os filhos da terra. Destrói-se a biodiversidade, contaminam-se rios, terras... Nossa realidade é o aquecimento global. E vemos um cristianismo com pouca sensibilidade ecológica. Mas, por outro lado, percebe-se uma maior consciência ecológica, onde se afirma: “Não estamos na Terra, somos a Terra”. Devemos nos preocupar com tudo e com todos ou não haverá sobreviventes.

3. Exclusão X Busca de um outro mundo possível
Há novos rostos de pobres, como afirma o Documento de Aparecida, os sobrantes (moradores de rua, imigrantes, encarcerados, dependentes de drogas, enfermos da rede pública de saúde). A liberdade é instrumentalizada para o consumismo. O supérfluo se faz conveniente, o conveniente necessário, e o necessário se converte em indispensável. Ninguém está seguro; ronda o fantasma da instabilidade, que gera medo e violência, que banaliza a vida. O medo paralisa e acovarda, é o principal meio de submissão. E, diante disso, busca-se um outro mundo possível.

4. Desencanto com a política X Irrupção da sociedade civil
A política virou “arte do possível”, onde os partidos políticos são meramente máquinas eleitorais, ou seja, fazem tudo para ganhar as eleições e depois desaparecem. De outra parte, surge a militância. A Igreja, através da animação vocacional, deveria trabalhar também para fora da Igreja, criando ministérios não apenas “internas”.

5. Crise das instituições X Passagem da sociedade à multidão
As instituições ficaram atreladas à lei do mercado, deixando as pessoas órfãs. Por outro lado, vê-se a passagem do social ao cultural, da sociedade à multidão (sujeitos autônomos e dispersos, mas não isolados, como comunidades invisíveis).

6. Inovação constante X Exigência de maior flexibilidade
Hoje em dia, a mais atual das inovações já sai da fábrica desatualizada. Estamos no mundo do provisório, passageiro, descartável. A nós, cabe usar e descartar. Esta mentalidade influencia as opções de vida: casamento provisório, ser padre ou consagrada até cansar. É fuga de todo compromisso: “Posso colaborar. Assumir não”. Uma cultura que favorece mais a sensação do que a reflexão. O passado perdeu relevância; o futuro é incerto; o corpo é referência da realidade presente, deixando-se levar pelas sensações. Cria-se uma sociedade das sensações. Internet, por exemplo, informam, mas não formam (não oferecem conhecimento). O contraponto é a maior flexibilidade, a necessidade de cultivar uma mentalidade de mudança, ser pessoa flexível.

7. Crise de sentido X Sede de Deus
Há grande fragmentação das estruturas orientadoras de sentido (inclusive as religiões). Isso gera frustração, ansiedade. Os jovens, por exemplo, estão infestados por uma espécie de consumismo de oportunidades fugazes. Lealdade já não é valor. Trata-se de uma verdadeira ética do depende! Por outro lado, há a sede de Deus, devido à anemia espiritual de hoje. Em nosso serviço de animação vocacional precisamos enxergar os vocacionados e as vocacionadas não como destinatários, mas sim como interlocutores. Isso influencia em nosso método de trabalho, de evangelização. O nosso papel é ajudar os jovens a descobrir (e não mandar a fazer isso ou aquilo, ou descobrir por eles).

8. Volta do religioso X Religião do corpo
A religiosidade atual é eclética e difusa. Um verdadeiro neopaganismo imanentista, que confunde salvação com prosperidade material, saúde física e afetiva. É a religião à la carte... Isso faz emergir a religião do corpo. Dimensão terapêutica, mas com profetismo. Deus quer a salvação de todos. A religião do corpo pode ser a porta de entrada da religião, mas pode ser a porta de saída.

9. Escapismo do esotérico X Afirmação do simbólico
Percebe-se uma tendência atual de que somente tem valor aquilo que é visualizável. Esta realidade das imagens, realidade virtual, acaba substituindo a realidade real. A imagem devora o símbolo. Devemos colocar ao lado do estético, o ético. Não podemos transformar o simbólico em esotérico.

10. Irrupção do pluralismo X Contraponto da intolerância
Coexistem atualmente diversos estilos e formas de vida. A religião é eclética e pluralista. O contraponto é buscado: o conservadorismo. O passado passa a ser refúgio; há incapacidade de diálogo. A alteridade precisa ser um pressuposto.

CONCLUSÃO


Deus não nos abandonou. Continua conosco... Nossa missão é, basicamente, irradiar. Está implícito que no discipulado já está a missão. Este conceito vem de Aparecida. A grande preocupação, ao invés de aumentar as paredes dos templos, deveria ser aumentar as comunidades eclesiais. É sumamente importante investir na participação e na experiência comunitária. Devemos chegar às pessoas. Muitos “deixam” a Igreja para de fato encontrar a Deus. Não podemos nos esquecer que por trás do vocacionado e da vocacionada existe uma pessoa. O Cristianismo deve potencializar o humano. A ação pastoral num processo formativo é essencial para o amadurecimento vocacional.