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04 de setembro - sábado:
Marco situacional - Vocações no atual contexto sociocultural
e eclesial
síntese
feita por Juarez Albino Destro
Após a abertura do congresso, na noite de ontem, a primeira
assessoria - do teólogo e sacerdote Agenor Brighenti - apresenta
um retrato de nossa situação, local onde estão
as vocações e os ministérios. Pe. Agenor é
professor em Curitiba (PR) e assessor da CNBB, autor de vários
livros e artigos sobre teologia e pastoral
UMA REALIDADE COMPLEXA E AMBÍGUA
Pe. Agenor Brighenti iniciou sua apresentação afirmando
que nossa realidade é muito complexa e com ambiguidades. “Vivemos
num contexto de crise. Nosso tempo é marcado por profundas
transformações”, afirmou. E a consequência é
o sentimento de orfandade, de abandono. Por outro lado, o assessor
disse ser um privilégio passar por crises: “Pode gerar um novo
nascimento, possibilitar uma nova oportunidade”.
Diante da crise devemos evitar uma postura catastrófica, numa
mentalidade apocalíptica, como se já tivéssemos
que esperar pelo fim. Devemos evitar, também, fazer meramente
retrospectiva histórica, apegando-nos a fatos passados. Precisamos
ser serenos, discernindo os sinais dos tempos, sem fugir do presente,
confiando na experiência do passado, olhando para o futuro,
esforçando-se para construir algo melhor do que se vive na
atualidade.
A REALIDADE EM DEZ AMBIGUIDADES
1. Individualismo X Novas formas de sociabilidade
Diante de pessoas extremamente individualistas e consumistas, onde
proliferam projetos pessoais, onde se prefere a repreensão
do que a responsabilidade, as novas formas de sociabilidade surgem
como estratégia de defesa. Neste contexto é muito difícil,
por exemplo, a pastoral de conjunto.
2. Economia de rapinagem X Consciência ecológica
A economia de rapinagem depreda a natureza e fere os filhos da terra.
Destrói-se a biodiversidade, contaminam-se rios, terras...
Nossa realidade é o aquecimento global. E vemos um cristianismo
com pouca sensibilidade ecológica. Mas, por outro lado, percebe-se
uma maior consciência ecológica, onde se afirma: “Não
estamos na Terra, somos a Terra”. Devemos nos preocupar com tudo e
com todos ou não haverá sobreviventes.
3. Exclusão X Busca de um outro mundo possível
Há novos rostos de pobres, como afirma o Documento de Aparecida,
os sobrantes (moradores de rua, imigrantes, encarcerados, dependentes
de drogas, enfermos da rede pública de saúde). A liberdade
é instrumentalizada para o consumismo. O supérfluo se
faz conveniente, o conveniente necessário, e o necessário
se converte em indispensável. Ninguém está seguro;
ronda o fantasma da instabilidade, que gera medo e violência,
que banaliza a vida. O medo paralisa e acovarda, é o principal
meio de submissão. E, diante disso, busca-se um outro mundo
possível.
4. Desencanto com a política X Irrupção da sociedade
civil
A política virou “arte do possível”, onde os partidos
políticos são meramente máquinas eleitorais,
ou seja, fazem tudo para ganhar as eleições e depois
desaparecem. De outra parte, surge a militância. A Igreja, através
da animação vocacional, deveria trabalhar também
para fora da Igreja, criando ministérios não apenas
“internas”.
5. Crise das instituições X Passagem da sociedade à
multidão
As instituições ficaram atreladas à lei do mercado,
deixando as pessoas órfãs. Por outro lado, vê-se
a passagem do social ao cultural, da sociedade à multidão
(sujeitos autônomos e dispersos, mas não isolados, como
comunidades invisíveis).
6. Inovação constante X Exigência de maior flexibilidade
Hoje em dia, a mais atual das inovações já sai
da fábrica desatualizada. Estamos no mundo do provisório,
passageiro, descartável. A nós, cabe usar e descartar.
Esta mentalidade influencia as opções de vida: casamento
provisório, ser padre ou consagrada até cansar. É
fuga de todo compromisso: “Posso colaborar. Assumir não”. Uma
cultura que favorece mais a sensação do que a reflexão.
O passado perdeu relevância; o futuro é incerto; o corpo
é referência da realidade presente, deixando-se levar
pelas sensações. Cria-se uma sociedade das sensações.
Internet, por exemplo, informam, mas não formam (não
oferecem conhecimento). O contraponto é a maior flexibilidade,
a necessidade de cultivar uma mentalidade de mudança, ser pessoa
flexível.
7. Crise de sentido X Sede de Deus
Há grande fragmentação das estruturas orientadoras
de sentido (inclusive as religiões). Isso gera frustração,
ansiedade. Os jovens, por exemplo, estão infestados por uma
espécie de consumismo de oportunidades fugazes. Lealdade já
não é valor. Trata-se de uma verdadeira ética
do depende! Por outro lado, há a sede de Deus, devido à
anemia espiritual de hoje. Em nosso serviço de animação
vocacional precisamos enxergar os vocacionados e as vocacionadas não
como destinatários, mas sim como interlocutores. Isso influencia
em nosso método de trabalho, de evangelização.
O nosso papel é ajudar os jovens a descobrir (e não
mandar a fazer isso ou aquilo, ou descobrir por eles).
8. Volta do religioso X Religião do corpo
A religiosidade atual é eclética e difusa. Um verdadeiro
neopaganismo imanentista, que confunde salvação com
prosperidade material, saúde física e afetiva. É
a religião à la carte... Isso faz emergir a religião
do corpo. Dimensão terapêutica, mas com profetismo. Deus
quer a salvação de todos. A religião do corpo
pode ser a porta de entrada da religião, mas pode ser a porta
de saída.
9. Escapismo do esotérico X Afirmação do simbólico
Percebe-se uma tendência atual de que somente tem valor aquilo
que é visualizável. Esta realidade das imagens, realidade
virtual, acaba substituindo a realidade real. A imagem devora o símbolo.
Devemos colocar ao lado do estético, o ético. Não
podemos transformar o simbólico em esotérico.
10. Irrupção do pluralismo X Contraponto da intolerância
Coexistem atualmente diversos estilos e formas de vida. A religião
é eclética e pluralista. O contraponto é buscado:
o conservadorismo. O passado passa a ser refúgio; há
incapacidade de diálogo. A alteridade precisa ser um pressuposto.
CONCLUSÃO
Deus não nos abandonou. Continua conosco... Nossa missão
é, basicamente, irradiar. Está implícito que
no discipulado já está a missão. Este conceito
vem de Aparecida. A grande preocupação, ao invés
de aumentar as paredes dos templos, deveria ser aumentar as comunidades
eclesiais. É sumamente importante investir na participação
e na experiência comunitária. Devemos chegar às
pessoas. Muitos “deixam” a Igreja para de fato encontrar a Deus. Não
podemos nos esquecer que por trás do vocacionado e da vocacionada
existe uma pessoa. O Cristianismo deve potencializar o humano. A ação
pastoral num processo formativo é essencial para o amadurecimento
vocacional.
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